Textos em prosa

2/10/2006

Do Diário De Um Adolescente Apagado

Sou um jovem de dezesseis anos muito apagado. Não tenho o brilho que muitos de meus colegas afirmam ter. Também não sustento a imagem de ser uma pessoa especial que meus pais tanto incentivam. Sou apenas um cara comum. Meus professores dizem que sou muito inteligente e que se eu me empenhasse mais seria o melhor aluno da sala. Dizem que não uso minha real capacidade, mas eu uso, apenas não saio chamando atenção do que faço inclusive aqui, não escrevo para me mostrar. Na internet, não gosto de salas de bate papo, aonde as pessoas vão para se exibir, e isso não combina com meu perfil de apagado.
Gosto de praticar esportes, mas não ligo muito se ganho ou perco. Não me interessa adquirir uma reputação de atleta como muitos desejam. Até que não sou ruim. Apenas não chamo atenção nem por jogar bem, nem por jogar mal. Estando no meio termo e não me esforçando para captar a atenção alheia, passo despercebido.
Não sou bom de briga, aliás, nem brigar eu brigo. Não provoco ninguém e sou tão insensível às provocações que chego a ser taxado como chato. Mas, um chato que é esquecido rapidamente. Não me esforço para chatear, nem para agradar. Não me aborreço, não me exibo, não estufo o peito, não galgo uma reputação de palhaço, não saio gritando quando tiro uma boa nota, nem quando marco um gol. Não invisto na minha visibilidade.
Atualmente, estou com minha terceira namorada. Não gosto de ficar. Tenho colegas que fazem questão de dizer que ficaram com várias. Eu gosto de namorar para me dar prazer e não para dar satisfação aos outros. Meus colegas comentam que eu tive até hoje uma namorada. Eles se referem à Alice, minha segunda namorada, a única com quem já me viram na rua.
Minha atual namorada, Simone, reclama de minha falta de ciúmes. Mas, o que é que posso fazer, se confio nela. Estamos juntos a dois anos; fazemos sexo, apesar de minha fama de virgem. Simone diz que detesta rapaz exibicionista, mas que também não precisava ser um fanático em não exibição como eu. Não é que eu faça força para passar oculto; força, não faço nenhuma, nada mais fácil do que ser como eu sou. E sou feliz sendo apenas “eu”.

Paulo Câncio

Assim era a praça

A essa altura, ele deve estar no céu. Faz tempo que não tenho noticias. Já era bem velhinho quando o conheci. Era raro passar pela praça e não vê-lo por lá. Cabelos brancos, pele enrugada, dentes faltando. Vestia-se de modo simples. Sentar-se no mesmo banco que ele significava ser convidado a conversar. Muitos se afastavam sem ouvir suas primeiras palavras; não estavam dispostos a escutar uma conversa chata de um velho que já deveria estar para lá de esclerosado. No entanto, quem se permitia dialogar uma vez ficava surpreso com a lucidez com que aquele homem falava. Como enxergava com clareza o que para outros parecia tão complicado!
Como muitos outros, eu ia diretamente à praça na intenção de levar um papo agradável e de ouvir palavras tão sábias. Várias vezes reparei em pessoas que chegavam tristes ou mal humoradas e saiam sorrindo, eu não era o único. Hoje a praça já não é tão freqüentada.
Não havia ninguém que já houvesse conversado apenas uma vez e não reservasse pelo menos um horário por semana, ainda que curto, para relaxar ou resolver problemas naquele banco da praça. Foram conselhos e opiniões que salvaram casamentos e impediram que empresas quebrassem. Muitos abandonaram a leitura de livros de auto-ajuda depois que começaram a freqüentar aquele banco da praça.
Passei muito tempo fora. Depois que retornei, não o encontrei mais, porém sempre me lembro dele quando passo pela praça onde não importa quantas reformas a prefeitura faça, nada substituirá o toque especial que o velhinho dava. Provavelmente, foi um anjo que cumpriu sua missão e voltou para o céu. Dadas as suas características não imagino que possa estar em um outro lugar.


Paulo Câncio

No Ponto de ônibus

Três rapazes aguardam o ônibus no ponto. Ricardo é louro, bastante esbelto e, neste dia, lhe incomoda o fato de ter que voltar da escola para casa em outro veículo que não o astra de seu pai, é garoto habituado a criticar os carros dos pais dos colegas. Rodolfo é gordo, o chamam de porco pelas costas. Gerson, sardento, não se destaca; seu sonho é ser igual a Ricardo a quem admira muito, tenta ser popular ironizando Rodolfo.

Um senhor cai na calçada; apesar do peso, Rodolfo é o primeiro a chegar perto e lhe estende a mão. Ricardo não se mexe. Gerson olha para Ricardo ,hesita, vai ajudar. O homem agradece.

- O senhor está bem? – pergunta Rodolfo.

O homem mostra-se acanhado, deixa transparecer que caiu por fome, num gesto brusco leva a mão à boca.
- Não precisa ter vergonha. – fala Rodolfo.

Não, não precisava. Afinal, tratava-se de um sujeito trabalhador há meses desempregado que “passava fome” junto à esposa para destinar as economias a alimentação dos filhos ainda pequenos. Em um involuntário desabafo, ele expressou seu drama através do raciocínio embotado pelo estomago vazio.

- Gerson! – chama-o Ricardo em tom autoritário e o outro obedece a seu ídolo – Dê esse dinheiro a ele, pão para o povo.

- Não, obrigado – fala o homem de longe com a voz fraca.

- O quê? O senhor não tem onde cair morto e recusa.

- Ainda tenho dignidade.

- Pelo que percebo, não tem dinheiro que dê para levar uma vida decente.

O homem tenta falar, mas lhe faltam forças.

- Ricardo, decência nada tem a ver com dinheiro. – rebate Rodolfo.
-
Gerson concorda com a cabeça, mas se sente atrapalhado com o olhar de Ricardo.

- Você não concorda comigo, Gerson? – Pergunta Ricardo, quase impondo um sim. Gerson fica com o olhar parado.
-
- Senhor – diz Rodolfo _ Eu não tenho muito dinheiro, mas aceite esses cinco reais que são de coração.

Agradecido o homem diz:

- Filho, não quero tirar seu dinheiro.

- É apenas uma merenda a menos, pelo menos é um pretexto para que eu coma menos.

Gerson e Ricardo fazem cara de espanto.

- É mesmo um idiota. – Fala Ricardo, assumindo a postura que lhe é característica.

- Não, idiota sou eu. – diz Gerson.

O desconhecido ri, aceita, agradece e vai embora. Ricardo propõe a Gerson gritar “idiota” para o homem que parte.

- Não! – corre até Rodolfo – Você fez uma boa coisa.

- Vai elogiar o cara que você chama de porco, baleia, oinc, oinc, oinc....

Gerson ruboriza.

- Fique tranqüilo, Gerson. Até hoje só fiz rir do esforço que as pessoas fazem para me chamar desses nomes, sem que eu ouça.

Gerson olhou para Ricardo:

- Durante muito tempo quis ser como você.
- Você nunca será como eu.

- Sorte minha. O ônibus chegou. Tchau, Rodolfo.

- Tchau, Gerson.

- Ei – Ricardo fica sem resposta e faz cara de brabo, enquanto Rodolfo se limita a rir.

Paulo

Anão ou gigante ?


Era apenas um sujeito com roupas rasgadas, parado próximo a uma lata de lixo. A autopiedade o corroia por dentro, quando sua atenção foi atraída pela passagem de um homem que lia o jornal a altas gargalhadas. Curioso, tentou aproximar-se. O desconhecido notou a sua presença e riu com mais intensidade ainda; já não ria do texto do jornal, mas do individuo mal vestido que desprezava. A autopiedade cresceu e ele diminuiu.

Apareceu uma mulher mascando chiclete; ele foi até ela na esperança de conseguir um pouco para si. Ela virou-se bruscamente e viu diante de si um gigante que podia devorá-la, roubá-la, estrupá-la ou matá-la. Ela correu com terror e ele correu atrás em estado de súplica. Quando ela percebeu que tudo o que ele queria é um pedaço de chiclete, seus olhos o reduziram ao tamanho de um verme, deixando-o menor ainda; foi a gota d´água para uma decisão de suicídio aflorar.

Ele se preparou para se jogar na frente de um caminhão, mas conteve--se ao ver uma criança prestes a ser atropelada por uma vã. Em um movimento rápido, salvou o garoto. Pessoas se aglomeraram em sua volta e aplaudiram seu ato. E ele crescue, cresceu e cresceu...

Paulo Câncio

2/08/2006

O ARTIGO

Uma vez, me foi solicitado um artigo sobre crianças com câncer; era um trabalho atípico, diferente do usual. Aceitei o desafio. Comecei a traçar as primeiras linhas no papel, não me senti satisfeito; o texto exigia algo além da criação, requeria pesquisa e pesquisa de campo.
Resolvi ir ao hospital de câncer. Manquei de uma perna até o ponto de ônibus; o carro apesar de ter gasolina, ficou em repouso na garagem; não havia, naquele momento, ninguém que pudesse me levar nele e eu, desde um acidente em uma partida de futebol, estava inapto a fazê-lo. Segundo o médico, eu já estava curado, mas a perna não pensava assim; o doutor dizia que o problema estava na cabeça, mas a perna achava que era nela.
- Deficiente pode subir pela frente – gritou o motorista do ônibus.
“Deficiente”? – questionei-me em pensamento.
Subi com dificuldade. Difícil também foram a descida e a caminhada ao hospital.
Pensaram que eu era um paciente, me vi rodeado de gente me paparicando. Abri a boca para dizer que tinha ido lá para fazer uma pesquisa na ala infantil, mas falei:
-Só vim visitar meu irmão pequeno.
A minha expressão de autopiedade era tão grande que em lugar da burocracia hospitalar, tive o acesso facilitado.
A princípio, pensei que estava no lugar errado. Porque aquelas crianças sorriam tanto? Estariam mesmo doentes? Teriam consciência do câncer? Muitos estavam sem cabelo, era desolador. Conversei com as enfermeiras que confirmaram o quanto aqueles meninos e meninas estavam cientes de sua situação.
- Eles convivem com a morte diariamente.
Fiquei penalizado. Um dos garotos me perguntou:
- Por que o senhor está triste?
Senti-me embaraçado diante daquela criança que tentava consolar-me. Terminei por contagiar-me por sua alegria. Mais a vontade, conversei com todos que pareciam felizes com a visita de um estranho.
Em um dado momento, percebi o quanto estava me envolvendo emocionalmente; eu estava lá para fazer um trabalho. Pensei um pouco e avaliei que não se tratava de examinar como um elemento químico reagia a outro, mas como seres humanos reagiam ao câncer. Sim, me envolvi emocionalmente e não me arrependo nisso. Aqueles pequenos gigantes me supriram com as informações necessárias para meu artigo e me fizeram experimentar uma felicidade que há tempos eu não sentia.

Eu ainda tive um terceiro beneficio que só vim a perceber na saída do hospital quando perguntaram...
- O senhor não entrou mancando?


Paulo Câncio